sexta-feira, 27 de março de 2009

loucuras destinadas



Deixei-me envolver pelas tuas danças que me deliciavam. O teu suave toque, a tua leve mão tocando em mim, é coisa que não esqueço. Conhecendo-te como te conheço, sei perfeitamente que previas o nosso futuro. Aliás, não julgues que apenas tu tiraste proveito da situação; felizmente eu saio sempre a ganhar uma grande parte.
A música absorveu-nos, era noite quente – não de Verão, ligeiramente idêntica, tu sabes como anda este clima ultimamente. Poderia comparar-nos ao clima; somos tão ou pouco mais inconstantes como ele. Perdi conta da infinidade de pessoas que nos rodeavam. Não refiro que perdêramos o controlo da situação, permanecemos conscientes, demasiado até. Senti o teu cheiro característico, sei precisamente o perfume que usas, daí reconhecer-te sem te ver. As nossas almas deixaram-se levar pela calada da noite e entregaram-se sem medos e sem pensar nas suas consequências. Eu sei que me desejavas, tanto sei que o admitiste. Mentiria se negasse que não desejaria o teu corpo da mesma forma que desejavas o meu. Estava destinado meu anjo, ambos sabíamos que tal iria acontecer. E se há sabedoria que não possuímos, é a de saber fugir ao destino e ao nosso percurso de vida. Somos tão inconscientes que colocámos as nossas atracções à frente dos nossos sentimentos passados. A lei da atracção tornou-se na nossa rotina, os nossos desejos eram visíveis aos olhos de qualquer desconhecido já em épocas passadas. O calor da noite absorveu os nossos corpos suados das intensas danças. A noite ainda era uma criança e já estávamos profundamente envolvidos. Envolvidos não só em danças, como em substâncias líquidas que apimentaram a nossa noite. Estive a poucos milímetros de ti e desvendei os mistérios dos teus olhares, mesmo no escuro da noite. O hábito de pegar num novo cigarro após o anterior apagado foi ritual das provavelmente cinco horas naquele recinto e provavelmente perdemos noção dos nossos actos. Talvez tenha sido loucura ou simples vontade de matar o bichinho do prazer que despertava em nós. A minha percepção intelectual é demasiado fixa, daí não absorver as preocupações que esvoaçam por entre nossos corpos diariamente. Isto dito agora, agora que olho para trás com um olhar diferente, um olhar mais perspicaz e pormenorizado. Um olhar atento, maduro. Agora limitamo-nos a jogar o jogo dos “se” – não pelo que se sucedeu, mas pelas suas consequências. Fomos tão imaturos que esquecemo-nos do nosso longo passado vivido, repleto de partilhas, momentos de profunda melancolia e momentos de extrema felicidade. Tornamo-nos demasiado voláteis. Não possuo qualquer sentimento de mágoa ou remorso por actos passados, não me defino por tal. Afirmo que a partir de agora o mesmo não se repetirá. Possuíste-me. Não por muito tempo, meu querido. Tratou-se de uma profunda troca de impressões num momento desejável, ou então uma loucura destinada, como queiras.

4 comentários:

joão disse...

http://wwwjosemalm.blogspot.com

marianaqueiros disse...

minha (linda) catarina, sabes que mais?
o texto está lindo e, sem sombra de dúvida, percebi-o (;
quem melhor para te conhecer, ou julgar?
(L

Qel disse...

Wooow. «Talvez tenha sido loucura ou simples vontade de matar o bichinho do prazer que despertava em nós. A minha percepção intelectual é demasiado fixa, daí não absorver as preocupações que esvoaçam por entre nossos corpos diariamente».
Este é, sem dúvida, o teu texto q até agora mais prazer me deu a ler. Adorei a maneira como fizeste fluir todos os aconteci/os e a forma simples como (d)escreveste tudo sem nunca deixar esse grande senti/o de parte; envolvendo-o sempre.
Revi-me muito neste texto especial/ neste excerto aqui:
«Não possuo qualquer sentimento de mágoa ou remorso por actos passados, não me defino por tal. Afirmo que a partir de agora o mesmo não se repetirá».
Quando largas o travão... *.*
Um beijinho *

Helena Coelho disse...

Tu escreves tão bem Catarina, gostei mesmo do que li :) *