segunda-feira, 12 de outubro de 2009

a casa é tua, tesouro


«But I'm holding you closer than most,
'Cause you are my heaven.»

Hoje escrevo-te uma carta, no meio de tantas outras rabiscadas por mim ao longo deste tempo. Hoje é só mais uma para juntar à colecção que guardo junto a mim, todos os dias. Gostava muito que um dia lesses o que te escrevi, nunca tiveste conhecimento deste meu gostinho pela escrita. Talvez porque não estavas presente quando o bichinho das palavras despertou em mim, infelizmente.
Sinto a tua falta, todos os dias desde o dia em que partiste. E mesmo quando voltas, os poucos dias que cá ficas não matam as saudades dos largos meses que deixas em cada uma das pessoas desta casa. Cada um de nós guarda um pouco de ti. A casa perdeu aquela brisa alegre que só tu tinhas a capacidade de trazer, perdeu a esperança que só as tuas palavras conseguiam suscitar. Foste a única pessoa que realmente me fez ver a vida com outros olhos, a encarar os obstáculos com determinação e tenho muito orgulho em dizer que formaste a minha personalidade, moldando-a ao melhor carácter, que é o teu. Transmitiste-me uma força tal que nem o passar do tempo a destruiu – apesar das minhas quebras, eu não sou de ferro, e graças a deus pois cada perda de força só me alicia a chegar ainda mais longe.
Não esqueço o teu perfume tão característico que marcava a tua presença nesta casa, não esqueço o teu sorriso que me enchia de uma extrema felicidade assim que aparecias à porta do meu quarto. É impossível não me recordar dos teus abraços nas horas certas, quando os gestos mais simples valem mais que mil palavras. E crescemos neste ambiente, de enorme ternura e respeito mutuo que os nossos queridos pais sempre nos ensinaram. Agora que olho para trás e comparo com o presente deduzo a falta que fazes, o vazio que deixaste neste lar… és insubstituível. Nunca nos esquecemos de ti, meu querido. Todos os dias olhamos para a tua fotografia que continua colocada exactamente no mesmo sítio onde a deixaste há três anos atrás, e todos os dias oferecemos um sorriso a essa imagem na esperança que o recebas e te lembres de nós.
A casa é tua, será sempre tua e eu estarei aqui, todos os dias de braços abertos para te receber e acarinhar da mesma forma como me fazias quando eu era pequenina e me esperavas à porta da escola como meu anjo da guarda. E eu corria para os teus braços, certa da segurança que me transmitias quando apertavas as minhas mãos gélidas, é uma característica minha. Serei sempre a tua pequenina que te irá irritar nos dias em que a tua paciência é a mínima, ou te irá encher de miminhos desejando algo mais tarde. Estaremos sempre juntos, desde o dia em que pegavas em mim ao colo e me tratavas com carinho até ao dia em que um de nós largue este Mundo.
Sabes, tenho a certeza que este Mundo seria bem melhor se fosses tu a governá-lo. Com essa tua generosidade, esse teu enorme carácter que me fascina e me enche de orgulho, a guerra acabava, a paz incidia sobre este planeta e provavelmente estarias agora aqui, ao meu lado, a secar-me as lágrimas que me correm pela cara a cada palavra que escrevo sobre ti. E provavelmente continuavas a ter conhecimento de cada dia da minha vida, cada episodio meu e estarias aqui, todos os dias, a estender-me a mão a cada socorro meu. Eu teria a certeza que cuidarias deste Mundo como cuidas da tua família, seria o teu maior tesouro. O meu tesouro és tu, a minha maior relíquia és tu e terei sempre aquela imagem de nós os dois mais o nosso companheiro de sangue juntos, com um sorriso de orelha a orelha a usufruir da inocência da infância que nos perseguia diariamente.
Agora estamos os três grandes e aptos para tomar decisões na nossa vida pela nossa própria cabeça. E apesar do tempo, da distância e das circunstancias que a vida nos pregou, a nossa ternura e a nossa inocência nunca acabará, pois não há maior certeza do que esta: amor só há um, é o amor de irmãos e nós temos o prazer de viver o amor mais belo deles todos.

Tenho muitas saudades tuas, espero-te no Natal, como em todos os anos, à porta de casa com os olhinhos a cintilarem de alegria. Até lá, tesouro.

4 comentários:

marianaqueirós disse...

É dos teus melhores textos. Deixaste-te de temas obscuros e com puco interesse e passas-te aos valores que merecem tal atenção.
Amo-te muito, catarina.

mary ♥ disse...

foi o melhor texto que li teu até hoje. estou sem palavras. simplesmente está lindo. acho que se o teu irmão o lesse vinha a correr secar as lágrimas e abraçar-te.

ana disse...

o teu texto está lindo catarina! já te tinha dito, mas volto a dizer. tens mesmo jeito para isto.
e quanto ao comentário que me fizes-te: o maior erro é deixar aquilo que amamos fugir. é realmente horrivel, e doí bastante. Arrependi-me mas infelizmente não mudou nada..

luisinha disse...

que lindo, sabes eu guardo um bocadinho de ti e toda a gente- certeza. olha tens um coraçao d'ouro!